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Publicado em 14/04/2010 por César Gama*
Usina nuclear no São Francisco
Querem jogar lixo radioativo no reservatório da água que se bebe
O governo de Sergipe empenha-se para ver instalada uma usina nuclear no São Francisco, rio responsável por abastecer com água potável quase 60% da população sergipana e mais de 40% da população alagoana. Aliás, uma só não! O governo federal deseja implantar duas usinas às margens do Velho Chico. O governador Marcelo Déda (PT) e o deputado federal Albano Franco (PSDB) querem deixar uma delas em Sergipe, como uma espécie de presente de grego da gestão Lula da Silva: um verdadeiro elefante branco potencialmente perigoso, travestido de Cavalo de Tróia para inimigo nenhum botar defeito.
A grande questão a ser colocada neste momento é por que deve-se permitir a um governo marcado pela inépcia e irresponsabilidade, manipulado por uma predatória elite econômica, que realmente governa, “presentear” com futuro tão sombrio e inseguro nossos filhos e netos. Com menos de cinquenta anos de vida pela frente, dificilmente essa gente ambiciosa assistirá aos malefícios do legado de inconsequências a ser provocado ao planeta e às próximas gerações pela sua ganância desenfreada por dinheiro e poder.
A caixa de fezes lacrada no interior do poço de água potável
Vamos a uma analogia, para testar seu senso comum. Imagine-se morando numa pequena casa sem rede de esgoto, onde é preciso instalar uma fossa séptica. Há outro problema: não há espaço no imóvel para a fossa, exceto se colocada lado a lado com o único poço artesiano cuja água você usa para beber. Já lhe haviam dito ser perigoso colocar uma fossa ao lado do reservatório de água potável. Há risco de contaminação. Mas o instalador da fossa afirma não haver motivos para se preocupar, pois o fabricante da caixa coletora de resíduos – que obviamente quer vender seu peixe - garante ser ela completamente vedada.
Surgem as indagações: você conhece algo feito pela humanidade que dure para sempre? Você arriscaria instalar a caixa de excrementos junto a água consumida pela sua família, acreditando ser a tecnologia humana capaz de torná-la indevassável e, portanto, livre de vazamentos por todo o tempo? E consumiria tranquilamente a água sem imaginar a possibilidade de surgimento de uma gigantesca e próspera colônia de coliformes fecais no copo levado à boca todos os dias? O simples senso comum, sem precisar do conhecimento científico, certamente já o deixaria de orelha em pé em relação à ideia tão extravagante.
Pois, nem mesmo isso, o mero senso comum, tem servido de parâmetro para o presidente Lula da Silva, o governador Marcelo Deda e o deputado Albano Franco analisarem melhor o projeto de instalar uma caixa supostamente inviolável e cheia de resíduos perigosos no meio do reservatório da água consumida em Sergipe e Alagoas. Com uma grande diferença: no caso de acidente com a caixa do exemplo acima, bastaria interromper o consumo da água temporariamente, tratar o reservatório com produtos químicos e esperar os resíduos orgânicos e microorganismos patogênicos serem destruídos ou processados pelo ambiente. Duraria certo tempo, mas você assistiria ao processo de recuperação do poço em vida.
No caso da caixinha surpresa planejada por esse pessoal para ser implantada no São Francisco, na hipótese de acidente com vazamento de resíduos radioativos, você só vai precisar esperar pacientemente pelos próximos dez mil anos – talvez! – para voltar a consumir a água do rio.
Só há 100% de segurança numa certeza: um dia você morre
Os argumentos dos defensores do projeto – eles alegam ser a usina completamente segura e livre de acidentes – merecem algumas considerações. Em primeiro lugar, tudo na vida, cedo ou tarde, é passível de mau funcionamento ou acidente; o homem não construiu ainda uma máquina 100% perfeita. Em segundo lugar, a natureza demonstrar que, além da incrível falibilidade da engenharia humana, ainda temos de conviver eternamente com todo tipo de fenômeno natural a desgastar continuamente qualquer coisa: seres humanos e demais animais, rochas minerais e aço, plásticos e até os fortes diamantes. Chuva, sol, marés, ventos... Todo tipo de alteração cosmológica, meteorológica e geológica natural comprova: a perenidade não existe.
Por fim, é preciso lembrar o fator humano na operação de qualquer equipamento. O erro humano tem sido a variável mais comum e menos controlável no desenvolvimento de todo projeto tecnológico. Se errar é humano; se os acidentes acontecem sempre; se a lei física da Entropia – a da completa e continuada desagregação e destruição da matéria – é regra avassaladora e definitiva, por que diabos depositaríamos junto a água que bebemos uma usina radioativa, cuja operação exige ser mantida e monitorada por séculos sem fim, para não corrermos o risco de um acidente que contamine o ambiente por milhares de anos? Sem dúvida, a resposta óbvia seria: apenas por conta da absoluta insensatez humana, sempre com a desmedida ganância por dinheiro a falar mais alto.
Na esclarecedora obra acadêmica Ciência Ambiental (11ª. Edição), o presidente da Earth Education Research, Tyller Miller Jr, diz: em 2004, os 439 reatores nucleares instalados em 30 países produziram apenas 6% da energia comercial do mundo e 16% da eletricidade. “De 1989 para cá, a produção de energia nuclear teve aumento ínfimo e hoje é a fonte energética que menos cresce (...) Desde 1978 não existem solicitações de usinas nucleares nos Estado Unidos e todas as 120 solicitadas, desde 1973, foram canceladas”.
As causas, segundo Tyler Miller Jr: “Algumas das razões são os custos de construção excedentes em bilhões de dólares, os custos de operação mais altos e um maior número de falhas do que o esperado”. Cai por terra, portanto, a ideia da segurança absoluta. Ainda em Ciência Ambiental, Miller complementa: “(...) a energia nuclear produz materiais radioativos que devem ser armazenados com segurança por 10 mil a 240 mil anos, até que sua radioatividade caia para níveis seguros. Além disso, quando o reator nuclear chega ao fim da vida útil (depois de 40 a 60 anos), não pode ser simplesmente fechado e abandonado, como ocorre com uma usina de queima de carvão. A grande quantidade de materiais altamente radioativos que contém deve ser mantida longe do meio ambiente por milhares de anos”.
Já no seu mais recente livro Os Senhores do Clima, o escritor, ambientalista e cientista australiano Tim Flannery simplifica o significado de uma usina nuclear, definindo-o com muita clareza ao fazer prevalecer seu lado verdadeiramente sombrio: “Ao discutir a energia nuclear como meio de gerar eletricidade, devemos ter em mente serem as usinas nucleares nada mais do que máquinas complicadas e potencialmente perigosas de ferver água e criar o vapor usado para mover as turbinas”.
Ao dissertar sobre tais perigos, Flannery lembra o caso de Chernobyl, o maior desastre nuclear da história, ocorrido em 1986, onde mais de 300 mil pessoas já morreram (até agora) e onde, duas décadas depois do acidente, “as consequências continuam crescendo. O câncer de tireóide é uma doença rara, acometendo uma criança a cada um milhão de nascidos. Mas 1/3 das crianças com menos de quatro anos expostas à radiação de Chernobyl terão a doença. Sete por cento (cerca de 3,3 milhões de pessoas) da população da Ucrânia sofrem de doenças decorrentes do derretimento da usina. Já na vizinha Bielorússia, que recebeu 70% da precipitação radioativa, a situação ainda é pior: 25% das terras agrícolas foram colocadas permanentemente fora de produção e cerca de mil crianças morrem por ano de câncer da tireóide”.
Então, por que o Brasil, na contramão dos países ricos, onde a energia nuclear é coisa do passado, não aproveita seu potencial hídrico, eólico ou mesmo o etanol como fontes renováveis para ampliar a matriz energética nacional, sem causar maiores danos ao meio ambiente, sobretudo ao já moribundo rio São Francisco? Certamente, apenas os interesses obscuros poderão explicar essa insana opção...
(*) César Gama é jornalista, psicanalista, professor, formando em Biologia, bacharelando em Filosofia e membro voluntário do Greenpeace. Este texto foi elaborado com dados de sua monografia de conclusão do curso de Licenciatura, intitulada “O estorvo da Energia Nuclear: ou de como a suposta ‘energia limpa’ é tão cara ao ambiente”.



